Brasília x Goiânia

Nos últimos anos muitos acreditam que Brasília vem perdendo de goleada para a cena rock de Goiânia. Produtoras, como a Monstro Discos principalmente, têm conseguido promover grande intercâmbio de bandas e informações com inúmeras cidades do país e agitado as noites da capital vizinha com vários shows e festivais, como o Bananada e o Goiânia Noise, só para citar os exemplos mais famosos.

Concordo que as coisas por lá estão (ou pelo menos parecem estar) mais efervescentes, embora também não faltem boas iniciativas entre o povo que "rala" no DF. Da periferia ao Plano Piloto tem muita gente batalhando pro rock funcionar. E, bem ou mal, vivemos um 2008 muito bom em termos de shows internacionais na cidade - como já comentamos em vários posts por aqui. Além do mais, ainda estamos na "vantagem" de termos revelado, pelo menos, quatro bandas de rock em nível nacional - só para ficarmos na tríade Legião-Capital-Plebe e mais os Raimundos.

Mas neste suposto "embate" Brasília x Goiânia, uma coisa me chamou a atenção esta semana. Fui convidado para fazer parte do júri do FestBandas Toque de Classe 2008, promovido pela homônima academia de música do Lago Sul. O evento aconteceu nas noites de terça e quarta-feira (29 e 30/10), no Teatro do Bancários, e reuniu 40 bandas formadas por alunos e alguns professores. No repertório, 95% de covers, o que já era de se esperar - afinal, o que estava para ser avaliado ali era a evolução dos meninos enquanto músicos e em conjunto, não necessariamente o talento deles como compositores.

Foram versões de Led Zeppelin, Nirvana, Faith No More, Dire Straits, Pink Floyd, Ozzy Osbourne, Ramones, Kiss, David Bowie, The Police, Queens of the Stone Age, Pixies, Muse, Hole e muito mais. O curioso é que apenas quatro músicas eram nacionais e, pasmem, duas delas de bandas goianas: MQN e Johnny Suxxx and the Fucking Boys! Nada de Brasília, nem mesmo dos nomes nacionais citados acima! Titãs e Cueio Limão foram as outras "homenageadas".

Talvez os meninos que tocaram sejam até nascidos em Goiânia, vai saber... Que fique claro que minha intenção não é desmerecer de forma alguma nossos vizinhos, pelo contrário. Mas o fato do rock independente de Brasília ter sido completamente ignorado pelos garotos dá o que pensar (e muito) em relação ao futuro das coisas...

PS: Em tempo: a banda vencedora fez uma versão muito competente de You know I´m no good, da Amy Winehouse. E o segundo lugar foi para um cover do Paramore, da música Mystery business.

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10 comentários para “Brasília x Goiânia”


  • Rodrigo, 30 de outubro de 2008
    A única banda de rock goiana,que chegou perto do mainstream,foi uma banda que fazia um som meio Mamonas Assassinas,e que chegou na época(começo dos 90)a perambular por RJ e SP.Não lembro o nome,e vocês também não devem lembrar,mas e daí?Quem se importa?A banda era ruim pra caramba mesmo!Agora quanto a questão levantada acima,digamos que ela é muito complexa,e eu vou parando por aqui,que eu quero ver o segundo tempo do jogo do Vasco.


  • berna beat, 30 de outubro de 2008
    sou fã de paramore. mas esse show de calouros cover com virtuosos de escolinha deve ter sido um belíssimo pé no saco. cover de dire straits em pleno 2008? ha


  • Marcelo, 30 de outubro de 2008
    Lá vou eu falar pras paredes de novo, mas não me espanta que a molecada não esteja tocando covers de bandas brasilienses. Vão tocar o quê? Dez anos atrás, elas tocariam hits locais como a "Tempestade", do Maskavo Roots. Ou então a "Space Cake" da Oz, que em inglês e tudo foi um hit local lá por 1992, 93. Ou tocariam alguma coisa do Little Quail ou Raimundos, que eu sempre achei bandas bregas demais, mas talvez até por isso conseguiram ir até mais longe, conseguindo hits ou semi-hits nacionais. Sem falar, é claro, nas bandas dos anos 80. Mas agora, qual é o grande hit do pop brasiliense de 2000 pra cá? Qual banda está se preocupando em fazer músicas com potencial pra agradar a quem não seja de uma tribo específica (metaleiro, punk emo, punk das antigas, etc) ou que não seja jornalista? Enfim, qual música tem hoje o alcance que uma "Tempestade" teve nos anos 90? Só que aí vc tenta, talvez, quem sabe, falar de qualidade das composições com os músicos, e eles ficam na defensiva, com aquela atitude de "mas eu já montei a banda, já armei um showzinho no Landscape, o Fernando Rosa já disse que eu sou gênio, como assim eu ainda tenho que me preocupar em escrever música que chame a atenção das pessoas?" E Goiânia também não tem nenhum grande compositor ou músico, mas a maior popularidade dos goianos já é outra história. É marketing muito bem feito, só isso.


  • Marcos Pinheiro, 31 de outubro de 2008
    Marcelo, eu concordo que não existe nenhum "hit independente" no rock Brasília atual como existia nos anos 90. Citaria até outros exemplos de músicas locais daquela época. Que, aliás, poderiam ter sido homenageadas pela turma da academia - afinal, se tocaram Dire Straits e outras coisas velhas, como disse o Berna (nem foi pé no saco o festival, foi até divertido), por que não algo antigo do som candango? Mas também não vejo nada disso no rock goiano. Enfim...


  • berna beat, 31 de outubro de 2008
    se eu tivesse banda, tocaria "quentes tardes na áfrica", do superquadra, que não é hit, mas que sozinha é melhor do que as obras completas da geração noventa


  • Marcelo, 31 de outubro de 2008
    Pois é, berna, eu já acho que foi justamente esse tipo de mentalidade que ajudou a jogar o rock brasiliense na fossa que nós vimos discutindo nas últimas semanas. Essa história de que a música brega feita por jornalistas era automaticamente melhor que a música brega feita pela piãozada-tatuada-fã-de-Ramones. Daonde eu tava olhando, pra mim brega era brega, independentemente de quem fazia a música. Mas vai saber.


  • Henrique Alencar, 6 de novembro de 2008
    A cena Goiana concerteza esta a frente da nossa. Os festivais que rolam lá tem nome forte, e já está na boca de todo o Brasil, e isso beneficia as bandas de lá, essa MQN tocou no Porão deste ano, e tirando as píadinhas sem graça do vocalista tocaram bem, e fizeram um Rock n Roll de prima! Em Brasília impera um clima cult, pós punk, indie sei lá, parece que só tem público para esse estilo aqui, e o engraçado é que não ouço falar de Beto Só, nem de nenhum outro desse bolo. Parece que, como alguém disse em outro post, os eventos que rolam aqui tem mais nome do que realmente merece, por exemplo as noites do Senhor F, que eu nunca ouví falar. A galera daqui, pelo fato do nome dito acima é meio snob ao contrário dos goianos que são super recepitivos.


  • sérgio ricart, 14 de novembro de 2008
    a cena de goiânia é melhor porque as bandas daqui, ou pelo menos as que tem melhor infra-estrutura e espaços pra tocar, deixam muito a desejar. o astral universitário/indie/los hermanesco tem sido nefasto para o rock local, que tem se especializado em chatices totalmente passáveis. no fim das contas, e com todo respeito ao marcos pinheiro, o fato de possuir medalhões da história do rock brazuca não contribuiu em nada para sedimentar uma cena forte. na verdade, acho que essa história de sucesso nunca foi ou será sinônimo de qualidade. também acho que o pessoal de goiânia não quer virar sucesso nacional, não nos moldes de legião, capital ou plebe... ainda bem. minha intenção não é polemizar e, claro, reconheço que essa coisa de falar em "qualidade" é sempre muito complicado. dava pra ficar escrevendo durante meses... na verdade, o que quero dizer é que o som que se produz hoje em brasília não interessa às pessoas que curtem rock'n'roll. enfim, sei lá.


  • Eduardo, 5 de janeiro de 2009
    Claro que o rock goiano está à frente... muuuuito à frente! Pelo menos três vezes por mês se pode ir a um festival de música independente com som 100% próprio, pelo menos 10 bandas, e olha que vejo bandas repetidas apenas nos principais eventos. Além do MQN, temos bandas como Black Drawing Chalks que tocam no país todo. Aqui em Brasília destaco Móveis Coloniais de Acaju, e sua iniciativa, com o Móveis Convida, que tenta colocar as bandas de música própria locais, porém, não vejo nessas bandas muita consistencia, pra falar verdade, passar a achar o Lafusa uma boa banda quando a assisti em Goiânia, não insistiram em covers e se soltaram no palco... coisa q não vi acontecer nos shows por aqui em Brasília!! Concluindo acho que é uma questão de cenário, do ambiente que envolve... som próprio e Rock em Brasilia? acho difícil, essa terra aqui é muito gananciosa, são poucos os fortes que se aventuram no risco de fazer rock próprio por aqui!!!


  • Frederico Oliveira, 27 de fevereiro de 2010
    Tenho uma tese antroplógica sobre conflitos de identidade entre goianos e brasilienses. Quem se interessa, entrar em contato. Sou compositor goiano que estive em Brasília para estudar antropologia e música. Tenho essa receptividade goiana e inventividade brasiliense. Agora estou no Rio. Posso garantir que se juntar a matriz rockeira de brasília com o caráter entusiasta de goiânia, temos potencial de superar o eixo Rio São Paulo. É isso que tenho fazer já que me sinto cidadão das duas cidades relativas a esse fórum. Por outro lado, a resistência associativa do velho eixo é muito consolidado e o pactos aglutinativos entre esse novo eixo Brasil Central ainda é muito pouco coeso. No que puder contar com o apoio de vocês, agradeço, pois no Rio tenho recebido poucos incentivos. Para quem interessar também, gravei um musical cujo algumas músicas são ambientadas em Brasília. myspace.com/fredleblue

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